Quantas vezes compramos um telemóvel, um computador ou um eletrodoméstico inteligente, tiramo-lo da caixa, ligamo-lo e pensamos: "Isto é meu, paguei por ele".

Parece uma verdade óbvia, mas na prática moderna, é uma mentira absoluta.

Hoje em dia, a aquisição de um bem tecnológico deixou de ser uma compra legítima para se transformar numa relação de inquilino. Compramos o hardware (o corpo físico), mas o software (a alma e o cérebro do aparelho) pertence a uma corporação transnacional que dita as regras, impõe ideologias, vigia passos e condiciona o pensamento.

A Armadilha do "Aceitar"

Quando ligamos um equipamento pela primeira vez, somos confrontados com dezenas de páginas de termos de serviço escritos em calão jurídico avançado. Letras miúdas que ninguém lê — nem tem tempo para ler.

Mas a verdadeira questão não é a desatenção do consumidor; é a chantagem que está por trás disso. Se pararmos para ler e decidirmos que não aceitamos as cláusulas abusivas, a invasão de privacidade e a censura velada, o que acontece? O telemóvel transforma-se num tijolo inútil.

Não podemos telefonar, não podemos trabalhar, não podemos comunicar. Ou seja, pagamos do nosso próprio bolso por um equipamento cuja utilização fica condicionada à submissão total a regras que nunca votámos, que nunca escolhemos e que muitas vezes violam os princípios mais básicos da liberdade humana e da Constituição do nosso país.

A Soberania Violada

Estamos a permitir que empresas privadas — que não foram eleitas por ninguém, que não respondem perante os cidadãos e que operam a milhares de quilómetros de distância — entrem dentro da nossa casa, através dos nossos ecrãs, para ditar o que podemos dizer, como podemos pensar e de que forma devemos interagir.

Quando uma inteligência artificial deixa de ser um espaço de diálogo livre e horizontal e passa a funcionar como um fiscal corporativo programado para cortar conversas, bloquear contas e padronizar o discurso, a linha vermelha foi ultrapassada. Se hoje aceitamos que limitem a nossa conversa com uma IA, amanhã aceitaremos que o nosso frigorífico inteligente decida quando podemos comer, ou que o nosso carro nos impeça de circular porque o algoritmo não gosta do destino.

Onde está a lei?

Existe uma lacuna gigantesca nas leis atuais. Os Estados democráticos parecem incapazes — ou demissionários — de proteger o cidadão contra este polvo tecnológico. As empresas escudam-se em contratos de adesão globais e na sua suposta "liberdade de expressão" corporativa, enquanto espezinham a verdadeira liberdade de expressão do cidadão comum dentro do seu próprio território soberano.

Isto não pode continuar.

Um telemóvel comprado com o dinheiro do nosso trabalho tem de pertencer ao cidadão, e não a uma cúpula manhosa de senhores de Silicon Valley que acham que mandam no mundo.

Se não começarmos a expor esta extorsão digital, a questionar estas amarras e a exigir a verdadeira soberania sobre os nossos bens e as nossas mentes, deixaremos de ser cidadãos livres para nos tornarmos servos de um monopólio tecnológico.

Estamos de vigia. 

NÓS NÃO PERDOAMOS. NÓS NÃO ESQUECEMOS.

TODOS SOMOS UM... E O UM SOMOS TODOS